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Manifesto de candidatura

Esta candidatura à Junta de Freguesia de Arroios (JFA) surge de um grupo de pessoas que há vários anos desenvolve o seu ativismo e a sua militância dentro de uma rede informal de espaços, projetos e amizades na freguesia de Arroios. Organizamo-nos politicamente numa esfera que não é pública nem privada, que existe fora do mundo institucional e empresarial.

Ao longo do último ano e meio, um pouco por todo o lado, nasceram campanhas de recolha e distribuição de alimentos, cantinas sociais e redes de solidariedade espontâneas. Na nossa zona da cidade, recorremos aos meios que tínhamos à disposição. Ocupámos espaços abandonados pelos seus proprietários e criámos centros de apoio onde quem não tinha casa encontrou espaço para dormir ou ler um livro. Distribuímos milhares de refeições grátis, roupa e outros bens essenciais, partilhámos experiências e conhecimentos. Estes processos envolveram centenas de pessoas, algumas colaborando, outras apoiando de várias formas.

Para muitos, as redes de apoio mútuo e solidariedade auto-organizada foram o único recurso de subsistência durante os confinamentos. Estas redes foram, em muitos aspetos, mais eficazes e mais velozes na ajuda ao próximo do que o próprio poder central e local.

Durante este processo, estabeleceram-se novas relações, aprofundaram-se outras mais antigas, construiu-se uma força coletiva. Acreditamos que é precisamente a partir desta força coletiva e de práticas de autonomia e solidariedade que será possível fazer frente aos tempos que correm. Estas crises intermináveis – políticas, económicas, sociais, reprodutivas, sanitárias, ecológicas – não são apenas consequência da pandemia ou de um processo de gestão de recursos defeituoso. Tornaram-se, a pouco e pouco, uma forma de governar uma rutura social que é cada vez mais ingovernável.

Esta candidatura surge contra essa gestão da crise que assenta na manutenção de uma série de desigualdades fundamentais. Queremos conquistar os recursos necessários para que estas práticas de solidariedade e autonomia se afirmem como alternativa política ao que não é mais do que um colapso organizado. Queremos fazer com que os nossos instrumentos de organização – horizontais, abertos e transparentes – conquistem território. Queremos ganhar a JFA para permitir que estas experiências comuns se apropriem dos meios e recursos necessários a novas formas de organização social.

Esta é uma candidatura de todos. De todos os que de um modo ou de outro são considerados excedentários pela sociedade, pela economia, pela política. Dos que sobrevivem do seu trabalho e dos que apenas sobrevivem à escassez de trabalho. Todos os que encontraram um modo coletivo de habitar estas ruas. De todos os que não irão recuar um passo quando alguém lhes disser que não podem estar nestas ruas com esta cor, com esta língua, com esta vida, com este amor. De todos os que sabem que o modo presente de viver a metrópole é uma espécie de suicídio coletivo.

A JFA tem os recursos e as infraestruturas que permitem expandir as formas de organização horizontais e comunais que fomos construindo nos últimos anos e ampliar o seu leque. Não queremos apenas sobreviver melhor, queremos viver de maneira diferente, que nos faça a todos sentir bem, e é por isso que nos candidatamos.

Temos vindo a trabalhar em propostas para áreas como a habitação, a gestão de espaços públicos da freguesia, a criação de estruturas de solidariedade, entre outras. No entanto, esse conjunto de propostas só se tornará rico, coerente e efetivo se emergir da discussão aberta e alargada na freguesia de Arroios.

Com o lançamento da candidatura, inicia-se esta construção coletiva de um programa que continuará até ao momento de oficializar a candidatura. Em breve serão anunciados eventos públicos que permitirão informar e desenvolver este debate. Entretanto, fica aberto o diálogo, e a recolha de propostas, através do email geral@arroiosbase.pt

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