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Programa Eleitoral Arroios BASE: Introdução

“Nada será como antes”. Esta é uma das frases mais ouvidas nos últimos tempos. O mundo, tal o qual o pensávamos e onde aprendemos a viver, desaba à nossa frente e tudo o que tomávamos por certo dissolve-se no ar.

Vivemos uma inédita acumulação de crises: a pandémica, a crise ecológica, a crise política, a crise económica, a crise de saúde mental, a crise da habitação, a crise financeira, a crise migratória, etc. Torna-se difícil perceber onde começa uma e onde acaba a outra. Torna-se difícil conceber o que fazer, quem somos, com quem estamos, de que lado nos posicionamos nos antagonismos e fronteiras que vemos surgir.

A política clássica não encontra as respostas adequadas. A aliança entre a burocracia cinzenta das instituições e as máquinas obscuras da política parlamentar parecem condenar a ação do estado a uma quase irrelevância. Este tornou-se incapaz de pensar além de si próprio e além dos grandes interesses económicos e financeiros.

As forças políticas que poderiam enfrentar essa incapacidade revelam semelhante impotência. Sujeitas ao jogo das instituições, ou imersas nas suas próprias crises internas, parecem incapazes de enfrentar a urgência que vivemos. Para lá da política, o terreno da “sociedade civil” não parece mais esclarecido. Da cultura à ciência, da indústria ao comércio, procura-se sobreviver às crises sem olhar para o problema como um todo, sem se dar conta que uns sofrem e sofrerão primeiro as consequências das catástrofes.

A única resposta ao momento que vivemos passa por formas de viver e de fazer em comum, ensaiadas e discutidas para lá das instituições, das empresas, das redes e dos ecrãs, para lá da esfera pública do estado e para lá da esfera privada do mundo económico, para lá das particularidades étnicas, religiosas e sociais, num espaço feito de todos os gestos formais e informais de solidariedade e comunidade que surgem no dia a dia.
A resposta à crise permanente virá duma pesquisa coletiva sobre como viver com aquilo que existe, usando-o de outra forma.

Durante a pandemia, todos vimos como desconhecidos se uniram para apoiar quem mais precisava; vimos cantinas espontâneas distribuir refeições grátis; vimos pessoas deixar comida nas esquinas de quase todos os bairros; vimos vizinhos fazer as compras uns para os outros; vimos redes de entreajuda prestando assistência um pouco por todo o lado a quem não se podia deslocar.

De igual modo, e mesmo nas condições mais adversas, muitos foram os que não cessaram de lutar pela sua dignidade. Aqui e pelo mundo fora nunca deixámos de ver gente lutar pela integridade da sua vida, contra todas as formas sistemáticas de exclusão, contra a violência policial e a prepotência do poder, contra o abandono que fundamenta a política contemporânea.

Assistimos ainda, aqui em Arroios, à forma como locais abandonados à especulação ganharam uma vida construída por quem nada tinha; e vimos, também, essa vida ser expulsa pela força ilegal de uma empresa de segurança privada.

A base de uma política capaz de responder a todas estas crises está neste tipo de gestos. É nas amizades construídas nas esquinas do bairro, nos intervalos do trabalho, no calor dos conflitos, à volta dos tachos, construindo coisas juntos, conversando à volta de um canteiro, que se forjam as relações capazes de edificar uma força que se materialize em poder.

O nosso programa procura ir ao encontro dessa força. Ela sempre existiu, sob formas diferentes, ao longo da história. Trata-se de perceber, aqui e agora, onde e como se manifesta. Queremos utilizar os recursos da Junta de Freguesia de Arroios para dar poder e corpo às redes de solidariedade e comunidade. Sabemos que essa força surge das dificuldades que cruzam as nossas vidas; sabemos que essa força traça linhas na areia; sabemos que essa força já existe em inúmeros outros conflitos. Trata-se agora de a tornar evidente, de lhe dar um nome, de lhe dar ferramentas, de lhe dar os meios que necessita.

Quando nos dizem que as coisas não podem ser de outro modo porque a alternativa é o colapso respondemos que o colapso é o modo como nos fazem sobreviver. Que tudo continue a ser como dantes. Somos, todos juntos, mais capazes de enfrentar a falta de futuro do que o batalhão de burocratas e gestores que nos têm entre a espada e a parede. Sabemos cultivar, cozinhar, construir, cuidar, limpar, reparar, discutir, escutar, dançar, brincar, educar e aprender. Eles só sabem comandar ou chamar a polícia.

Aquilo a que chamamos de mundo está a acabar. Nós queremos que esse fim do mundo signifique o fim da exploração económica, da devastação ambiental, da exclusão estrutural, do capitalismo. Que do fim deste mundo nasça uma vida digna de ser vivida.

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