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Por um espaço de discussão e organização em Arroios

Existe uma perigosa combinação de crises em marcha (a crise climática, a que foi criada pela pandemia da COVID-19 e a que resultará da invasão da Ucrânia), que deve ser enfrentada de forma social, coletiva e a partir da base. 
Foi o que aconteceu em alguns locais durante a crise pandémica, quando o Estado, por vontade ou incapacidade, foi incapaz de responder a grande parte dos problemas, mas também quando a caridade ou o filantropismo foram insuficientes. 
Durante este período, desconhecidos uniram-se para apoiar quem mais precisava, cantinas espontâneas distribuíram refeições grátis, muitos deixaram comida nas esquinas de quase todos os bairros, vizinhos compraram produtos uns para os outros e redes de entreajuda prestaram assistência a quem não se podia deslocar.
Na prática, estas iniciativas demonstraram que existe uma capacidade de organização ágil e eficaz que pode resolver muitos problemas de primeira linha em momentos de crise, a partir de iniciativas baseadas em redes de contacto e proximidade, aplicando conhecimentos e capacidades técnicas que existem para lá das instituições. 
Hoje, mais do que nunca, é necessário potenciar estes processos, mas é também importante reconhecer as limitações de uma organização puramente espontânea. É, portanto, urgente construir uma base mais sólida para estas iniciativas através da criação de redes de contacto, espaços de discussão e organizações locais com base numa dinâmica aberta, onde seja possível partilhar informação, conhecimento e entreajuda.
Esta foi uma das motivações da candidatura Arroios BASE (arroiosbase.pt) à Junta de Freguesia de Arroios, em 2021. Passado o período eleitoral, e perante as crises que se avizinham, as propostas contidas no programa eleitoral da BASE, e muitas outras, tornaram-se ainda mais urgentes. Mas o que as torna interessantes é o facto de serem independentes de ciclos eleitorais e, mais do que de uma força política no poder, necessitarem de uma força coletiva que as queira levar à prática de forma autónoma, auto-organizada e democrática.
No entanto, isso só é possível se as pessoas se puderem encontrar, criar relações e, nesse processo, intensificar uma força que só pode surgir quando se está junto, a dialogar e a debater, para enfrentar problemas comuns e cozinhar soluções coletivas.
Além disso, construir redes de apoio, cantinas de bairro, soluções para a habitação, mobilidade ou energia só é possível se o conhecimento necessário for partilhado e tornando comum e aberto. Da carpintaria à história, das técnicas de fermentação de alimentos à capacidade de pôr cantinas a funcionar, da identificação de plantas medicinais à eletricidade, as necessidades são muitas e as potencialidades ainda mais.
A incerteza causada pela pandemia, pela guerra e pela crise ecológica significam também um esgotamento dos modos de organização social que conhecemos, revelando-se necessário conceber novas formas de agir e existir em conjunto. As esferas locais (bairro, freguesia, zonas de proximidade) são a primeira linha de organização para construir e reclamar uma maior autonomia material. No momento presente, é fundamental sedimentar e estruturar novas formas de organização ao nível das comunidades.
Assim, para dar corpo a tudo isto, em outubro de 2022 vai ser lançado um espaço de discussão e organização em Arroios, que pretende ser:
– Um espaço permanente de discussão e debate, onde pensar e construir alternativas políticas, sociais e logísticas em Arroios.
– Um espaço de trabalho e organização comunitária que permita levar a cabo projetos concretos em áreas como alimentação, energia, distribuição, mobilidade, educação, tecnologia e habitação, entre outras.
– Uma rede de coletivos, organizações e indivíduos para coordenar a partilha de recursos, infraestruturas e conhecimentos. 
– Um espaço que potencie encontros e relações entre as pessoas que vivem, trabalham ou simplesmente frequentam esta zona.
Tudo isto com o objetivo de:
– Desenvolver uma capacidade comum de fazer frente à crise social, económica, política e climática, através da construção de soluções coletivas para problemas comuns.
– Dotar as comunidades de ferramentas e técnicas alternativas às lógicas do lucro, da mercantilização e da privatização das necessidades comuns.
– Partilhar práticas, conhecimentos e saberes que permitam desenvolver a autonomia local.